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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O ESPETÁCULO DO TEMPO

É espetacular!


Tempo como serviço, não como espetáculo

Não é nenhuma novidade: a cada tragédia, e o PIG lança mão de seu arsenal de fuzilamento contra o Governo.
Lula foi o responsável pelo choque em pleno ar do boing da Gol com o Legacy da Embraer.
O nordestino de Garanhuns não controlou o jato da TAM que não parou e pegou fogo em Guarulhos.
Foi Dilma - e não Deus, como em São Paulo - com a "ajuda" de Lula que fez desmanchar com água vinda do céu os morros cariocas.
Pior: Dilma não avisou a população que a morte estava chegando.
Assim como o próprio PIG.
Esta postagem, extraída da Carta Maior, do professor da USP, o jornalista Laurindo Filho bota a mão nessa ferida.
O PIG, sem nenhum princípio ético e moral, faz uso político de uma tragédia e expõe milhares de vítimas ao constrangimento.

Quantas vidas não poderiam ter sido salvas se, em vez colocar no ar o Ratinho ou o Big Brother, as emissoras tivessem avisado à população de que fortes chuvas estavam previstas para a serra fluminense na noite anterior à tragédia, com instruções dos poderes públicos sobre como agir.

Laurindo Lalo Leal Filho

Todas as redes comerciais de televisão no Brasil têm as suas moças do tempo. São herdeiras, em São Paulo, do Narciso Vernizzi, o primeiro “homem do tempo” da rádio Jovem Pan.

Elas surgem do nada, entre uma notícia e outra, aparecem no canto da tela e caminham para o centro, mostrando mais que o tempo as suas belas curvas.

Em casa, o telespectador vê atrás das moças as indicações do clima e da temperatura em todo o Brasil. Com algumas variações, esse tipo de informação é universal. O canal mundial da BBC mostra o tempo em várias partes do mundo, sem as moças.

São informações úteis, mas limitadas. Ajudam a sair de guarda-chuva no dia seguinte ou, aos viajantes, a escolha do que colocar na mala. Não sei se informações tão superficiais e genéricas contribuem para decisões mais importantes, como dos agricultores, por exemplo.

Apesar do avanço da internet, o rádio e a televisão ainda são os mais eficientes e abrangentes serviços públicos de informação. Não há outro meio que consiga falar de forma tão rápida para milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Em momentos críticos tornam-se imprescindíveis. Pena que, por aqui, são pouco usados nesse tipo de prestação de serviços.

No caso de tragédias, como as deste início de ano, ao invés de moças desfilando à frente de ilustrações artísticas, deveríamos ter as programações interrompidas.

Em seu lugar seriam formadas cadeias nacionais ou locais de rádio e TV, antes das catástrofes, dando orientações seguras para a população. Sem pânico, mas com precisão e firmeza. E não generalizando com frases do tipo “chove no litoral do nordeste”.

Trata-se de um de trabalho que deve ser o mais localizado possível, com o envolvimento articulado dos serviços de meteorologia, da defesa civil e do jornalismo, na produção das informações.

Quantas vidas não poderiam ter sido salvas se, em vez de colocar no ar o Ratinho ou o Big Brother, as emissoras tivessem avisado à população de que fortes chuvas estavam previstas para a serra fluminense na noite anterior à tragédia, com instruções dos poderes públicos sobre como agir.

Ou, no caso, de São Paulo que vias deveriam ser evitadas na iminência dos temporais, já que não há segredo nessa cidade sobre onde se localizam os eternos pontos de alagamento.

Para obter mais eficiência, esse serviço deveria ter seu foco nas informações locais. Dai a importância da regionalização das programações de rádio e TV, tão combatida pelos concessionários do setor.

No entanto são elas que darão às emissoras regionais e locais experiência, tanto na produção como na técnica, para enfrentar com competência situações extraordinárias.

Nem todos se salvariam, é verdade. Mas, com certeza, os danos seriam menores.

Furacões violentos que varrem o Caribe todos os anos causam grandes estragos materiais em Cuba, mas pouquíssimas vítimas.

Simplesmente porque as autoridades estabelecem planos precisos para a retirada da população das áreas criticas e a orientam através do rádio e da TV, com razoável antecedência, sobre as medidas que devem ser tomadas.

Muitos navios não foram à pique na costa brasileira graças ao programa radiofônico “A Voz do Brasil”. A seção “Aviso aos navegantes” informava todos os dias, minuciosamente, as condições das bóias de luz, sinalizadoras dos perigos naturais existentes no mar.

Era o rádio atuando como serviço público numa época de recursos eletrônicos muito limitados, se comparada aos hoje existentes.

Satélites transmitem informações meteorológicas com alto grau de precisão e as redes de rádio e TV cobrem todo o território nacional.

Falta apenas articular esses dois serviços com planos nacionais e locais de prevenção à catástrofes naturais.

No caso das enchentes no sudeste e centro-oeste, trata-se de problema datado, de dezembro a março. Há todo o resto do ano para o trabalho de planejamento e articulação.

Quem toma a iniciativa?

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

REPRISE

Esse bis o carioca não pediu

Até as pedras que rolaram dos morros e as águas que se precipitaram além do leito dos rios sabiam que essa tragédia iria acontecer.

Porque se tratava apenas da repetição de cenas já tragicamente vistas antes.

Aliás, repetidas a cada ano.

E aconteceu.

De novo.

A reprise.

Sem que pouco tivesse sido feito para evitá-la.

Porque no Brasil a regra é deixar que o mal ocorra para só depois procurar pela cura.

E isso em todos os aspectos, níveis e áreas que ensejam uma ação de governo.

Da Saúde à Educação, passando pela Segurança até a preservação do Meio Ambiente.

É menos custoso prevenir a doença que curá-la.

A presidenta Dilma disse no Rio que moradia em área de risco é a regra e não a exceção.

É como afirmar que no Brasil a ocupação desordenada do solo que gera catástrofes como esta é algo normal e comum.

Agora, prevenir é que parece ser anormal.
A exceção.

Embora a prevenção e ordenamento de construções seja atribuição da Defesa Civil nos estados e municípios, Dilma preferiu, por solidariedade, repartir a responsabilidade com quem se furtou a fazê-la.

Entretanto, o Jornal Nacional não hesitou logo em apontar um culpado pelas centenas de mortes: o Governo Lula.

Lula não teria repassado os recursos necessários para prevenção de catástrofes e contenção das encostas nas cidades atingidas.

Esse Lula é um bárbaro!

Porém, chamou a atenção o que disse logo em seguida um “especialista” da Globo.

Segundo ele, medida alguma evitaria uma tragédia cujo início se deu há mais de quarenta anos.

Mesmo porque a chuva que desabou sobre os morros foi de uma intensidade desproporcional.

E sua força destruidora não fez distinção entre destruir casas humildes, barracos ou mansões.

É certo que as autoridades do Rio, mesmo avisadas, nada fizeram para evitar que a tragédia tomasse as proporções que tomou.

Mas tiveram mais de cinco décadas para fazê-lo.

Os 780 milhões disponibilizados pelo Governo Federal significa muito pouco, não para ajudar na reconstrução de pontes e estradas, e sim porque nada há que reconstrua uma vida.

A dignidade da pessoa e a vida humana não se reconstroi com doações ou fundos financeiros.

A dor e o desespero que dilacera a esperança de quem perdeu tudo em segundos não tem preço.

Muito embora de uma hora para outra se descubra que a vida vale muito pouco.

Mas também que vale sempre a pena lutar por ela.

Até a próxima reprise da próxima tragédia, em 2012.